Entidades alertam para risco de concorrência desleal e defendem reconhecimento do vinho como setor agroindustrial estratégico
A Associação Nacional dos Produtores de Vinhos de Inverno (ANPROVIN), a Associação de Produtores de Uvas Vitis vinífera da Serra do Rio (AVIVA), a Associação dos Viticultores da Serra dos Encontros (AVVINE), a Câmara Setorial da Uva e do Vinho do Estado de São Paulo, o Sindicato da Indústria do Vinho de São Roque (Sindusvinho), o Sindicato da Indústria do Vinho de Jundiaí (Sindivinho) e o Sindicato da Indústria do Vinho de Minas Gerais (SindVinho.MG), entre outras entidades representativas da cadeia produtiva, solicitam a abertura imediata de diálogo com o governo brasileiro para tratar dos impactos do possível acordo Mercosul–União Europeia sobre a vitivinicultura nacional. Ainda que o acordo esteja suspenso e em processo de judicialização, as entidades consideram fundamental o início desse diálogo.
O bloco representa centenas de vinícolas e produtores de estados estratégicos como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Distrito Federal e Bahia polos que, além da produção de vinhos tradicionais, vêm se consolidando nas últimas décadas com os vinhos de inverno, baseados na técnica da dupla poda, na inovação tecnológica e na forte integração com o enoturismo.
Essas regiões produzem vinhos de alta qualidade e impulsionam o enoturismo, atividade que gera milhares de empregos e promove o desenvolvimento sustentável de cidades e comunidades rurais, de forma semelhante ao que ocorre em países europeus e nos Estados Unidos, onde o enoturismo movimenta bilhões de dólares na economia local.
O setor vitivinícola não se opõe à abertura comercial, mas alerta para a ausência de isonomia nas condições de concorrência. Enquanto os vinhos europeus chegam ao mercado brasileiro respaldados por subsídios históricos e políticas públicas consolidadas, o produtor nacional enfrenta elevada carga tributária e um enquadramento regulatório que ainda não reconhece o vinho como um produto agroindustrial estratégico.
Crescimento e importância econômica
Dados recentes reforçam o peso do setor. Em 2025, a produção brasileira de vinhos e espumantes cresceu mais de 30%, alcançando 290 milhões de litros, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV).
A cadeia vitivinícola:
• Emprega mais de 120 mil pessoas direta e indiretamente;
• Envolve cerca de 70 mil agricultores familiares;
• Impulsiona o enoturismo e com ele o desenvolvimento e a renda regional;
• Contribui para a fixação do homem no campo.
O enoturismo, em particular, tem um impacto transformador no Brasil, promovendo o desenvolvimento de cidades e regiões inteiras, atraindo turistas nacionais e internacionais para rotas vinícolas em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Distrito Federal, representando pelo menos 50% do faturamento de muitos projetos de vinho no Sudeste e Centro-Oeste. A cadeia do vinho gera empregos, sustenta pequenos produtores e mantém viva a cultura local.
Com políticas adequadas, o Brasil poderia replicar sucessos observados em outros países, maximizando seu potencial econômico. Na França, por exemplo, o enoturismo gerou 5.4 bilhões de euros em receitas anuais e sustentou quase 31.000 empregos em 2023, atraindo 12 milhões de visitantes e impulsionando o desenvolvimento regional.
Na Itália, o setor contribuiu com quase 3 bilhões de euros em 2024, atraindo 15 milhões de visitantes e representando até metade do lucro das vinícolas, fomentando o crescimento de pequenas cidades e integrando vinho com gastronomia local. Nos Estados Unidos, no Vale de Napa (Califórnia), o enoturismo gerou US$ 2.5 bilhões em gastos de visitantes em 2023, criando 16.000 empregos e impulsionando o desenvolvimento econômico de comunidades rurais. Na Austrália, visitantes a vinícolas gastaram AU$ 11.6 bilhões em 2024, com 7.5 milhões de visitas, diversificando a economia de áreas remotas e contribuindo para mais de 200.000 empregos no setor de vinho como um todo.
Esses exemplos destacam o que o Brasil, com sua vitivinicultura moderna e com identidades regionais distintas, pode alcançar ao priorizar o vinho e a cadeia do vinho como estratégicos.
Para as entidades, sem medidas compensatórias pode comprometer investimentos, empregos e a expansão das novas regiões produtoras.
Propostas do setor
As organizações defendem seis pontos centrais:
1. criação de mesa de negociação com participação efetiva do setor;
2. reconhecimento do vinho como atividade agroindustrial estratégica;
3. revisão do enquadramento tributário e regulatório;
4. políticas de apoio e incentivo à produção e à exportação;
5. investimentos em pesquisa, inovação e promoção do vinho brasileiro.
6. investimentos em enoturismo, incluindo infraestrutura para rotas vinícolas,
capacitação de mão de obra local e promoção internacional.
O pedido das entidades descritas nesta carta não é a proteção e sim equilíbrio


